Uma não-ficção sobre a Empresa-Ciborgue

Há poucos minutos recebi um aviso da “Criatura”, ela diz que em uma empresa-ciborgue cliente um indicador foi atingido – luz amarela sobre certo assunto – e explica que providências tomou – conforme havíamos planejado anteriormente e lhe ensinado – e que ações foram enviadas para serem executadas e por quem. 

Para chegar nesse indicador, durante a noite, enquanto o lado humano da empresa estava em casa descansando ou em algum momento de lazer, o lado máquina, gerido por uma OIP – Plataforma de Inteligência Organizacional que carinhosamente chamo de Criatura, estava analisando todos os dados das várias conexões e bancos de dados da empresa-ciborgue, de olho neste e em mais uma quantidade enorme de indicadores, regras de negócio e compromissos com data e hora para execução.

As práticas ciborgues  constituem hoje o nosso modo de vida nas organizações e fora delas. Não existe mais a barreira entre a pessoa e a máquina, assim como entre o mundo real e o virtual que também constitui nossa realidade. Se era o trabalho que nos constituía como humanos, ele agora passa pela tecnologia que é nossa extensão. (HARAWAY, 2013)

Haraway (2013) diz que o ciborgue é caracterizado pelo  hibridismo entre o ser humano e a máquina, a incorporação das tecnologias em seus modos de existência, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção.  

Os ciborgues reais tem estado entre nós há quase setenta anos. O primeiro possivelmente foi um rato de laboratório, de um programa experimental no Hospital Estadual de Rockland, em Nova York, no final dos anos cinquenta. Foi implantado no seu corpo uma pequena bomba osmótica que injetava doses controladas de substâncias químicas que alteravam diversos de seus parâmetros fisiológicos. O termo foi inventado por um engenheiro e um psiquiatra, Manfred Clynes e Nathan Kline, num artigo de 1960 que cita o rato-ciborgue. Cyborg (Ciborgue) é a abreviatura de cybernetic organismo, e se refere a um “homem ampliado”. (KUNZRU, 2013)

Vivemos a ciborguização, que altera o nosso modo de existência. Há uma incorporação das tecnologias digitais em nossas ações do cotidiano, modificando o modo de existir e agir sobre o mundo (HARAWAY, 2013). Isso pode ser traduzido, dentre outras maneiras, em termos de gestão e negócios, assim como em termos psíquicos. 

Kunzru (2013) diz que “uma coisa torna o ciborgue de hoje fundamentalmente diferente de seus ancestrais mecânicos: a informação.” (p. 123) Para Haraway (apud Kunzru, 2013, p. 123) “são máquinas de informação. Eles trazem dentro de si sistemas causais circulares, mecanismos autônomos de controle, processamento de informação – são autômatos com uma autonomia embutida.”

As inúmeras possibilidades oferecidas pelas tecnologias digitais potencializam a ação do ser humano sobre seu dia a dia. Agora precisamos poder ir para nossas casas ao final do dia tendo a certeza de que continuamos online, por meio de nossa extensão-máquina. Nossa parte humana precisa descansar, se recuperar e reequilibrar, não é necessário guardar todas as regras de negócios em nosso cérebro humano, pois elas estão lá na organização, não somente anotadas, mas em ação, dentro de nossa extensão-máquina que não tem necessidade de parar. 

Por isso, não mais desligamos tudo ao final do dia. Pela manhã, e a todo momento, temos que, não somente poder enxergar os indicadores da organização, mas as ações devem ter sido disparadas a partir deles automaticamente, obedecendo critérios e regras de negócios que vamos aprimorando a partir de feedbacks vindos de nossa extensão informatizada. No máximo elas precisam estar somente dependentes de nosso OK. E mais, nossos produtos e serviços, participantes da geração de valor de nossos clientes e, portanto, de seus modelos de negócios, precisam estar enviando feedbacks todo o tempo para nossa parte máquina.

Não somos mais necessários? Ao contrário, só não precisamos mais decorar tarefas repetitivas, podemos nos dedicar aos clientes e às relações humanas. Continuamos tendo que analisar periodicamente os feedbacks de nosso lado máquina e aprimorá-lo, alterando e incluindo novas regras de negócios. 

É preciso que a organização seja vista e tratada como um sistema complexo que consiga se adaptar constantemente ao meio ambiente-mercado. Como o que caracteriza um sistema complexo é seu alto índice de erro, incerteza e ilusão, é exatamente ai que nós seres humanos precisamos atuar. E podemos fazê-lo com muito menos desgaste utilizando nosso lado máquina.

Maslow (2033, p. 95) alerta que “Em meio à inovação tecnológica, onde produtos e mercados emergem e desaparecem em velocidade relâmpago, muitos líderes simplesmente se esquecem de que os negócios são, em sua essência, um importante empreendimento humano.” 

A ciborguização talvez seja a grande virada de que necessitamos para reduzir o adoecimento crescente em nossas organizações.

Minha Criatura

Ao longo de minhas experiências como consultor, senti a necessidade de criar um diferencial para as empresas que atendia. Algo que preservasse a inteligência da empresa naquilo que ela possuía de bom e que pudesse agregar novas maneiras de fazer as coisas, consagradas por grandes pensadores da gestão. Também queria que tivessem maior conexão com  clientes, revendas, franquias, fornecedores e a sociedade.

Havia uma dificuldade no que diz respeito aos colaboradores, principalmente quando se tratava de pequenas empresas. Isto se caracterizava por alguns aspectos:

  • De contratação – como pagar bons profissionais.
  • De seleção – como saber se são bons profissionais.
  • De manutenção – como mantê-los na empresa, uma vez que já se está pagando aquilo que se pode pagar e não se consegue gerar uma perspectiva de carreira.
  • De substituição – em caso de férias, de doença, de falta ou mesmo de morte.

Além disso, todas, sem exceção, atribuíam a falta de capacidade de inovar, de crescer, de organizar, ao dia a dia.

Estas e várias outras questões afetam o diferencial que aqui estou chamando de “Inteligência organizacional”, no sentido de sua preservação e ampliação.

Desta situação surgiu a ideia do desenvolvimento de um software que pudesse ajudar as empresas a sobreviverem. Algo diferente do que existia. Porque a maioria das empresas realmente morre em um período muito curto. Fiz uma pesquisa durante anos para provar isso. Eu apresento um resumo ao final deste artigo. 

Meu software foi inicialmente batizado de FullControl – este é o nome comercial da Criatura. Vou descrever algumas características do software que desenvolvi e que continuo a desenvolver, agora dentro de um projeto maior chamado “OIP – Organizational Intelligence Plataform”, uma plataforma mais completa merecedora de ser considerada nesta nova era da Indústria 4.0. Faço isso com o intuito de mostrar a junção de partes de quatro conceitos e de como é possível ajudar a sobrevivência das empresas: a) Empresa-Ciborgue, funcionando por b) Gestão de Processos, utilizando c) Internet das Coisas e d) Computação Cognitiva.

Inteligência Artificial de Atuação

A OIP pode ser enquadrada dentro da Computação Cognitiva, ou seja, respeitando o enorme abismo existente, tenta transferir para o computador algumas características da forma de trabalhar do cérebro. Porém, a computação cognitiva a que me refiro, está dentro da Ciência Cognitiva da Atuação, utilizada nas investigações feitas por Rodney Brooks nos laboratórios do MIT – Massachusetts Institute of Technology nos EUA, para a criação de robôs. (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1991)

Na verdade, não existe um consenso do que é a Computação Cognitiva. Grosso modo, podemos dizer que ela trata da capacidade de computadores pensarem como seres humanos, ou o mais próximo possível disso. No nosso caso, devemos sempre considerar que: 

  • A empresa é um ciborgue – metade máquina e metade humana; 
  • A teoria que seguimos, dentro do pensamento de Rodney Brooks,  entende que a inteligência pode ser uma emergência da soma de processos não lineares. (VARELA;THOMPSON; ROCSH, 1991)

A ciência cognitiva de atuação busca na evolução suas justificativas e contraria a ideia da representação, dizendo que é a unidade errada de abstração na construção das partes de maiores dimensões dos sistemas inteligentes. Rodney Brooks buscou uma decomposição das atividades produtoras de subsistemas. Cada atividade pode ser pensada como buscando uma determinada finalidade de adaptação na evolução humana, uma pequena competência. As camadas podem ser ligadas, mas não são diretamente subordinadas, decidem a atuação por si próprias, apesar de poderem ser “chamadas” ou receber informações de outras. Pensando em sistemas como camadas, “Cada atividade ou comportamento produzindo sistemas individualmente estabelece uma ligação entre os sentidos e a ação.” (BROOKS apud VARELA;THOMPSON; ROCSH, 1991, p. 272)

Não existia no robô de Brooks, que evitava esbarrar nas coisas, algo como um subsistema de percepção, sistema central e sistema de ação. Poderia, inclusive, existir dos canais independentes ligando o sentido à ação – um para iniciar o movimento e outro para as paradas de emergência -, ou seja, não há nenhum lugar onde a percepção apresente uma representação do mundo no sentido tradicional. Segundo Brooks, não havia representações envolvidas em nenhuma camada de suas Criaturas. Elas não tinham um sistema central. A junção e compatibilidade de camadas dá origem a um sentido de finalidade somente aos olhos de um observador, parecendo um padrão coerente de comportamento, porém gerado por interações de camadas que se percebidas uma a uma pareceriam uma grande confusão. (VARELA;THOMPSON; ROCSH, 1991)

Diferentemente da forma tradicional, em que robôs eram construídos com metas específicas, tarefas e planos, as Criaturas, uma sucessão de quatro robôs móveis, quando ligados eram viáveis em qualquer mundo onde tivessem sido largados. Brooks entendia que a Criatura poderia alcançar o nível de inteligência de um inseto, com quatorze camadas, num período de dois anos. (VARELA;THOMPSON; ROCSH, 1991)

Meu objetivo, apesar da inspiração, não foi o de permanecer próximo da realidade biológica e sim de me utilizar de algumas de suas lógicas da maneira possível.

Vejamos uma outra comparação interessante: Edelman (1995, p. 38) explica que “[…] há porções do cérebro (na realidade, a maior parte dos seus tecidos) que recebem input apenas de outras porções do cérebro, fornecendo por sua vez output a outras, sem intervenção do mundo exterior.” 

Assim acontece com os processos não-lineares que a minha Criatura tem dentro de si. Eles podem ter sua origem na leitura e seleção de dados e indicadores gravados por outro processo, assim como também podem gravar os seus próprios, numa rede sempre crescente. A partir da sobreposição de camadas de processos simples não lineares, o equivalente a regiões cerebrais vão se formando, porém relativas às áreas e assuntos da empresa-ciborgue. Lembrando que a criatura vive num mundo de dados dos quais se alimenta e com os quais constrói indicadores e lança processos, com atividades para o mundo exterior ou para si mesma. 

Tudo isso se torna muito dinâmico, pois um indicador que foi usado hoje para disparar um processo que afeta outro indicador, pode ter sido alterado em seguida.

Edelman (1995, p. 45) explica que “Embora em determinada escala o cérebro se pareça com uma vasta rede eléctrica, na sua escala mais microscópica ele não está ligado ou estruturado da mesma maneira que qualquer outra rede […]”. O cérebro se auto-organiza e vai sendo criado pelo movimento celular ao longo do desenvolvimento, pela expansão e ligação entre neurônios (EDELMAN, 1995). O mesmo acontece na Criatura se trocarmos a ligação entre os neurônios por ligação entre atividades de processos. 

A metade humana não é e não será nunca descartável, mas a metade máquina, se incorporar, por meio de processos, muitas das preocupações, cálculos, hábitos bons e atividades repetitivas necessárias, liberará a parte humana para criar e para cuidar das relações da empresa-ciborgue. Mais do que isso, constituirá uma base mais sólida para que aquilo que precisa ser feito seja feito e com informações da realidade para as tomadas de decisões.

Vejamos algumas características da Criatura:

Aprendizagem

O cérebro cria novas conexões neurais na medida em que aprende. Na Criatura essas conexões neurais são representadas pelas ligações entre as atividades, formando processos. Um conjunto de conexões neurais forma uma rede neural que pode ser mais simples ou mais complexa e que está conectada a um número muito grande de outras redes neurais. Um processo, conjunto de atividades interligadas, pode se conectar a outros processos, formando uma imensa rede de processos simples interligados. 

Nos lobos frontais do cérebro humano temos as “funções executivas”. Elas possuem papel importante na regulação da cognição e também do comportamento e das emoções. O conceito diz respeito a um conjunto de processos cognitivos e metacognitivos que permitem que o  indivíduo tenha controle e possa regular seu comportamento frente às exigências e demandas ambientais, além do processamento de informação, o que permite seu engajamento em comportamentos adaptativos, auto-organizados e direcionados a metas. As funções executivas – um construto e não uma competência unitária – são requeridas quando há ações novas, não rotineiras. (SEABRA et al, 2014)

Quatro das principais funções executivas são: planejamento, execução, monitoramento e controle inibitório. É tudo o que necessitamos para não agirmos por impulso. É onde se encontra nossa moral e nosso planejamento a médio e longo prazo. Também é onde mantemos nossa disciplina de execução e fazemos o monitoramento do caminho que traçamos para programarmos algum desvio ou tratarmos com obstáculos inesperados.

No caso de uma pequena ou média empresa isso é feito pela “cabeça do dono”, mas nas empresas-ciborgues aquilo que o dono deseja considerar é juntado com a lógica fria do lado máquina e muito melhores decisões podem ser tomadas, seguindo práticas consagradas de gestão que a criatura já aprendeu. A reflexão sobre cada ação a ser tomada exige velocidade e a consideração de um número grande de fatores. Esta ampliação é possibilitada pela Criatura. Ela permite que se reflita sobre os pensamentos-processos e que os mesmos sejam revistos e melhorados constantemente. 

Uma nova conexão neural pode ser estabelecida a partir de uma simples percepção, ou seja, o cérebro aprende e tem plasticidade – neurogênese – nascimento de novos neurônios -, e sinaptogênese – formação de novas sinapses ou conexões. No caso da Criatura, um usuário qualificado (responsável por funções executivas), pode no momento do uso, criar uma nova conexão, uma nova atividade para alguém. Ele faz isso de forma restrita ao seu âmbito, ou seja, para o grupo de outras pessoas às quais gerencia. Escolhe uma pessoa ou papel (cargo/função) do seu grupo, estabelece o que ela tem que fazer e o que irá receber, descreve a atividade e envia. 

A Criatura para executar a ordem, cria um processo com uma atividade para o gestor (Função Executiva) e uma atividade para o colaborador da equipe (outro neurônio) e a conexão entre as duas atividades. 

Se isso não se repetir, tal como no cérebro, a atividade vai perdendo prioridade e ficando por último na lista de atividades utilizadas, se for utilizada novamente, fica mais forte e ganha prioridade. 

Estes processos ou atividades de processos existentes são criados automaticamente e são incluídos em outra categoria distinta dos processos “normais”. Quando for efetuada a reunião sobre processos, eles aparecerão, para serem justificados, incorporados, substituídos ou extintos.

Machine Learning

A Criatura também tem a capacidade de utilizar algoritmos para reconhecer padrões e preferências. Com esta capacidade da Inteligência Artificial, ela aprende com os clientes, com os colaboradores, com os produtos vendidos. É o que se conhece como machine learning (aprendizagem de máquina).

Permita-me dar exemplos simples de aprendizagem de máquina. Quando você vai preencher um campo em uma Atividade de um Processo, a Criatura mostra os conteúdos que foram utilizados nas últimas N vezes em que se colocou um conteúdo diferente. Isso já facilitou não é? Mas se você entrar com um conteúdo novo, diferente de todos os outros que foram informados para aquele campo anteriormente, ela vai lhe perguntar se deseja mesmo informar aquele conteúdo, você poderá dizer que sim, que não ou que não quer que ela repita a pergunta para aquele campo. De qualquer maneira ela vai classificar por quantidade de vezes o conteúdo que você usou e mostrar como sugestão nesta ordem. 

Mas ela também vai relacionar o conteúdo deste campo com o conteúdo dos demais campos da Atividade historicamente e vai descobrir se há alguma relação, por exemplo, você usa mais um certo código fiscal de venda todas as vezes que se trata do cliente X.

A Criatura também pode estender um de seus conectores e trabalhar em parceria com softwares que fazem Data Mining (mineração de dados) e análises extremamente complexas com uma grande quantidade de dados – R, Weka, Phiton -, dentro do conceito de big data, buscando o reconhecimento de padrões, associações, mudanças e anomalias. Nessa parceria a Criatura entrega para análise também os dados sobre seus processos e recebe de volta informações para seu próprio melhoramento.

Já tradicional em marketing, a mineração de dados e o machine learning (aprendizado de máquina) hoje encontram aplicação em diversas áreas: medicina, educação, processamento de linguagem natural, bioinformática, detecção de fraudes, reconhecimento de fala, finanças, robótica, sistema de recomendação, mineração de texto e tantas outras. (AMARAL, 2016)

Vamos novamente aqui fazer uma analogia com uma característica do cérebro humano. Para Goldberg (2006), no ser humano, com a idade, parece reduzir o número de tarefas cognitivas que necessitam de uma criação penosamente esforçada e deliberada de novas imagens mentais. “Cada vez mais, a solução de problemas toma a forma do reconhecimento de padrões, em vez da simples descoberta de uma resposta.” (p. 33). 

Segundo o autor, “[…] o reconhecimento de padrões é o mecanismo mais poderoso para uma cognição bem-sucedida.” (GOLDBERG, 2006, p. 33)

Conhecimento externo consolidado

A Criatura também pode agregar novos conhecimentos já consagrados na gestão e nos modelos de negócios, utilizando-se de “Atividades e Processos Prontos” para isso.

Como isso funciona? Vamos a um exemplo:

O Gerente habilitado (Funções Executivas) busca em um cardápio uma das atividades que podem ser executadas automaticamente de forma parametrizada. Escolhe a Atividade “Cálculo de Turnover”. Verifica que para gerar o resultado “Turnover Calculado” a Atividade precisa receber as informações de “Período de tempo”, “Total de Entradas de Funcionários”, “Total de Saída de Funcionários” e “Total de Funcionários”. A Atividade também lhe mostra o cálculo que fará. 

O gerente busca uma atividade que gera como resultado “Total de Entradas de Funcionários”. Ela lhe mostra que lê uma tabela (existente) com registros de entradas de funcionários e seleciona o período (últimos N dias, último mês, últimos N meses). Faz o mesmo com uma atividade que gera como resultado o “Total de Saídas de Funcionários” e outra que gera o “Total de Funcionários”.

Ao invés disso, poderia informar diretamente os três valores a cada vez que a Atividade fosse executada ou poderia atribuir a Atividade a um de seus colaboradores para faze-lo.

Pode escolher em seguida uma atividade de decisão, baseada no resultado gerado. Se turnover do período tal estiver acima de X%, gera uma atividade para outra pessoa ou para si mesmo. Por exemplo: convoca uma reunião com todos os membros da diretoria.

Ao confirmar estas decisões, terá gerado um pequeno processo, com atividades automáticas e atividades manuais, incorporado pela Criatura.

Podemos ver que existe uma qualidade gerativa, estimulando o uso e permitindo inclusive o uso daquilo que ainda não se conhece ou não se tem familiaridade (GRAFF; BIRKENSTEIN, 2011). Isto sem qualquer esforço adicional, ao contrário, de forma preventiva, enquanto ainda é tempo. Pode parecer estranho a você, mas a maioria dos empresários de pequenas empresas não saberia calcular o turnover, muito menos explicar o que se poderia fazer com ele ou quais os outros indicadores envolvidos.

A Criatura tem condições, não somente de mostrar o indicador de turnover em um dashboard, mas, de responder para onde está indo o turnover, se está crescendo ou diminuindo e porque, baseada em uma regressão onde o turnover será correlacionado historicamente com todos os fatores geradores e amenizadores aprendidos até o momento. Cada fator poderá ser correlacionado individualmente e também de forma conjunta. Para cada fator, poderá haver um processo previsto e ela o disparará para que as ações sejam executadas, considerando sua correlação maior ou menor, positiva ou negativa.

A Criatura também permite que se tenha uma completa Gestão do Conhecimento. As Atividades aparecem para o lado humano, com as respectivas explicações do que significam e da forma de executa-las. Uma pessoa que entra agora na empresa, contata com a Criatura através de uma Atividade, recebe a explicação de como as tarefas da Atividade devem ser feitas e consegue executá-la.

Pense num outro exemplo extremamente simples. Uma mensagem do setor de marketing deve ser enviada diariamente a um grupo social e por e-mail. Uma vez estabelecido o processo da mesma forma que o anterior, nunca mais será esquecido. E pense ainda que existem as opções de atribuir a alguém a atividade, transferir automaticamente a atividade de pessoa/papel se não for executada dentro de um período de tempo, assim como a possibilidade de alguém ser avisado continuamente se não for executada dentro de um período de tempo. 

Minha carteira de motorista vencerá no dia cinco de setembro deste ano, no próximo mês. Claro que a Criatura não só me avisou, como continua me cobrando que eu faça a renovação. Quando vence a sua?

Gestão de Processos

BPM é uma das abordagens mais utilizadas no design de organizações modernas e de sistemas de informações. Diz respeito à utilização da tecnologia da informação no aumento do grau de produtividade e inovação de organizações privadas e públicas. Aumenta a quantidade e a qualidade das informações para a tomada de decisão, combate os processos excessivamente manuais dando velocidade e a burocracia, principal causadora da entropia organizacional. Trata-se de uma importante ferramenta de transformação organizacional e de operacionalização da estratégia. Além de atuar no ganho de produtividade, a gestão por processos de negócio permite a inovação e a transformação contínua dos negócios e das cadeias de valor interorganizacionais. (BROCKE; ROSEMANN, 2013)

A OIP permite que uma empresa-ciborgue siga os principais preceitos de BPM – Business Process Management, sem que ninguém da empresa precise entender do assunto. 

Agora, pense simplesmente numa Rotina ou Processo como um fluxograma, com suas várias Atividades, que exigem intervenção humana ou não, controladas por condições ou regras de negócio previamente estabelecidas.

A Criatura controla qualquer rotina ou processo no que diz respeito às suas Atividades e Tarefas, total ou parcialmente, sem que se precise fazer a modelagem. Uma vez ensinada à Criatura, o processo, dentro das regras de negócio que foram discutidas e incluídas, começa a gerar Atividades para as pessoas que devem executá-las.

Basicamente a Criatura passa a controlar o que deve ser feito, quem deve fazer, quando deve ser feito e como deve ser feito. Imagine tudo o que é esquecido ao longo do tempo ou com a saída de alguém, ou que é feito de maneira diversa a cada vez ou por cada pessoa diferente. A Criatura também permite que se inclua checklists para o controle destas atividades. 

Pense sobre o problema que foi apresentado quanto aos colaboradores anteriormente. Agora, quando um colaborador novo entra, o próprio processo o treina na maneira de executar cada atividade sob sua responsabilidade. E quando um colaborador sai não leva consigo a forma de fazer. 

Além disso, conforme consensos da equipe ou da liderança, o processo exige periodicamente, por exemplo, a cada mês ou a cada três meses, ser atualizado. Então, aqueles profissionais contratados que trazem na bagagem conhecimentos úteis para a empresa, podem contribuir na melhoria do processo. Mas este é só o início. 

A Criatura cuida de alertar periodicamente de que é necessário parar para reflexão, pensar sobre os pensamentos-processos. Isso é feito através de versionamento, ou seja, os processos vão sendo melhorados em tempo, custo e qualidade, indefinidamente.

Os métodos e técnicas que como consultor implanto na empresa, agora permanecem após o término do meu trabalho, dentro dos processos. E todo o tempo, novas técnicas e melhorias estão sendo implementadas, sem morrerem no mês seguinte. Mais ainda, a quantidade de regras de negócios funcionando ao mesmo tempo e com velocidade é impressionante, não podendo ser imitada somente por humanos, sem uso de tecnologia.

Não posso esquecer de citar como isso tudo afeta as relações: há uma diminuição significativa do microgerenciamento, uma vez que se tem certeza de todo o combinado está sendo executado. As pessoas ficam mais liberadas para as relações e o nível da conversa sobe, discute-se coisas mais nobres. Não existe a chegada de um novo gerente que muda tudo e vai embora um ano depois, levando o know how, com os presentes assistindo uma repetição, enquanto a empresa sente-se refém. 

Sabemos que uma das causas do envelhecimento e morte de empresas é a entropia causada pela burocracia crescente. Mas a Criatura tem seus truques, aprendeu a Metodologia GAUSS e, quando gera uma atividade de uma pessoa para outra, atribui automaticamente o Tipo e o Nível da Entrega. (PAVANI; SCUCUGLIA, 2011)

Além disso, cada pessoa que recebe uma atividade de alguém, mesmo quando ela vem da própria Criatura a partir da análise de um indicador, por exemplo, pode dar uma nota e fazer uma observação. 

Explicando um pouquinho o que isso significa: 

Nível da Entrega: “característica de um objeto que determina a sua importância com base na relevância hierárquica horizontal e diagonal dos clientes daquele específico objeto.” (PAVANI; SCUCUGLIA, 2011, p. 137)

Quanto mais uma determinada entrega desconsiderar a hierarquia, mais importante ela será, assim como, quanto mais ela for direcionada para cargos que estejam “pulando” a subordinação hierárquica imediata do cargo do executante, mais importante será considerada. A Criatura leva isso em consideração para determinar o Nível da Entrega de uma Atividade do Processo. (PAVANI; SCUCUGLIA, 2011).

Tipo da Entrega: “característica de um objeto que determina a sua abrangência com base na dispersão dos clientes executantes daquele específico objeto.” (PAVANI; SCUCUGLIA, 2011, p. 137).

A Criatura utiliza o Tipo das Entregas para perceber “indícios de excesso de burocracia ou de fluxos de percurso não otimizados, além de duplicidade de executantes dos objetos ou ainda de excesso de carga de trabalho de determinados cargos.”  (PAVANI; SCUCUGLIA, 2011, p. 143).

Para fazer este controle automático da importância das entregas, a primeira coisa que a Criatura precisa aprender é o organograma da empresa. Ela entende que as entregas mais importantes são aquelas solicitadas de fora, pelos clientes, pelos acionistas, pelo governo ou por parceiros e fornecedores. E que quanto menos pessoas ou áreas diferentes puderem colocar a mão para que retorne com uma entrega ao solicitante, tanto melhor. Os primeiros a aparecerem são os centralizadores e os microgerenciadores. 

Empresa-Ciborgue e Internet das Coisas

Não é possível falarmos de uma empresa-ciborgue, como a condição de sobrevivência na era da indústria 4.0, sem falarmos da Internet das Coisas. 

Estamos tratando da interface entre o real e o virtual da parte máquina da empresa-ciborgue, e da conexão com todos os demais ciborgues.

Para Sinclair (2018, p. 23), “A Internet das Coisas é algo que está acontecendo com ou sem você.” Ela “está mudando todos os setores de atividade, os fundamentos dos negócios e os relacionamentos com os clientes […]” (RUECKERT apud SINCLAIR, 2018, s/p). Teremos disrupções em muitos setores: agricultura, automação doméstica, produção industrial, assistência médica, etc. Penso realmente que teremos, em maior ou menor grau, disrupções em quase todos os setores da economia.

“A Internet das Coisas não é nova e nem inédita, mas o modelo de negócios que ela propicia pode ser transformador.” (FORSTER apud SINCLAIR, 2018, s/p). “Sem dúvida, o valor decorre da transição bem-sucedida das empresas, da venda de serviços para a venda de soluções integradas e, finalmente, para a ajuda aos clientes na obtenção dos resultados almejados.” (BANERJEE apud SINCLAIR, 2018, s/p)

Nos aspectos técnicos a IoT é uma evolução da Internet, porém, suas ramificações em termos de negócios produzirão efeitos revolucionários e disruptivos, lançando as bases da Outcome Economy (Economia de Resultados). Estamos falando de compra e venda de resultados que impactarão todos os tipos de negócios. Indústria, comércio, serviços, infraestrutura, educação, saúde, governo, nada escapará. E ela é real e reconfigurará todos os setores que estiverem em seu caminho, agora a Internet das Pessoas é também a Internet das Coisas. A mudança, como você deve ter percebido, já começou. (SINCLAIR, 2018, p. 13).

A IoT também diz respeito a análise de dados de forma massiva. A grande maioria das pequenas e médias empresas não faz, por exemplo, uma análise sistemática da não-venda. Seja ela de pessoas ou empresas que já foram seus clientes ou de prospecções e processos de venda de seus vendedores.

Brinco com duas questões nas empresas que atendo: a) Em quanto devemos aumentar o indicador de inadimplência para aumentarmos a margem de contribuição, o lucro e fazermos mais caixa? b) Por quanto mais caro devemos comprar a matéria-prima para que seu pagamento fique dentro, porém, por último, no ciclo financeiro e de produção do produto sem onerar a margem de contribuição além do previsto? A grande maioria dos empresários se assusta com estas colocações, ambas coerentes e usadas para salvar empresas. A própria margem de contribuição ainda é uma novidade entre as pequenas e médias empresas. Estes mesmos empresários não conseguem transformar os dados em informações a serem analisadas comparativamente de forma sistemática. Não preciso nem dizer que a Criatura faz isso.

Obviamente sempre existirão os produtos que cujo valor estejam neles próprios. Aquilo que mais se vê hoje. Mas as mudanças já iniciaram. Na outra ponta do contínuo estão os resultados, e os modelos de negócio ficam todos em algum ponto deste contínuo que tem numa das pontas a economia baseada no produto – o valor está no produto em si mesmo – e na outra, a economia baseada em resultados.

A nova ética ciborgue

A empresa-ciborgue não está conectada unicamente ao mercado , mas ao mundo, e não o está apenas por um canal de comunicação que possa controlar. Muito mais que isso: cada uma de suas partes seres humanos  também são ciborgues e cada uma dessas partes está conectada ao mundo pelo seu lado máquina. 

Tudo se mistura porque cada parte da empresa-ciborgue recebe e passa informações, ou mesmo vive por meio de seu avatar, no mundo virtual. 

Teremos, portanto, que pensar em uma nova ética, compatível com a era da empresa 4.0. As pessoas possuem partes-máquina conectadas ao mundo durante o tempo em que permanecem dentro da empresa. Com raríssimas exceções, esta é a regra. Por outro lado, os humanos – parte humana do ciborgue empresa – continuam a ser movidos por seu psiquismo, sadio ou adoecido. Será necessário compatibilizar.

A questão é mais profunda, nossa identidade, quem somos, e toda a subjetivação que nos ocorre, parte do pressuposto dessa nova realidade cibernética. Maslow explica que uma das características das pessoas em processo de auto-realização, ele diz que “Estes indivíduos altamente evoluídos assimilam o seu trabalho como identidade, ou seja, o trabalho se torna parte inerente da definição que eles fazem de si próprios.” (2000, p. 1) 

Também é de Maslow uma frase sobre a qual devemos refletir na empresa-ciborgue: “As únicas pessoas felizes que conheço são as que estão trabalhando direito em algo que consideram importante.” (2000, p. 11) Ele alerta que “Talvez a maior parte dos males contemporâneos se deva, muito mais do que eu pensava, à introjeção daquele tipo de trabalho do qual não se tem orgulho, que é robotizado e subdividido em partes” (2000, p. 20). Penso que chegamos num tempo em que trabalhos robotizados serão feitos, efetivamente por robôs. Parece-me inevitável. 

Lembro do dia, há alguns anos, em que percebi que algo efetivamente havia mudado. Foi para mim o divisor de águas. Estava sendo implantada a Nota Fiscal eletrônica no Brasil, uma mudança radical no uso da Internet. 

Eu estava na fila de um dos inúmeros caixas da Livrarias Cultura, a que fica no Conjunto Nacional da Avenida Paulista em São Paulo. Esse local é maravilhoso, com um bom atendimento, as pessoas são educadas e posso ficar completamente à vontade para escolher os livros que gosto. Costumo dizer que é o meu céu, que quando morrer quero ir para lá. 

Havia duas ou três pessoas na minha frente, era um dia de bastante movimento. Então, uma das caixas levantou o braço e informou a todos que o sistema estava fora do ar. Pensei que seria uma boa oportunidade de ver como era a forma de contingenciamento para a emissão de notas fiscais eletrônicas, considerando que a Livrarias Cultura foi uma das primeiras a utilizar oficialmente a NF-e.

Não havia! As pessoas que desejassem poderiam deixar os livros a serem pagos com o seu nome e, quando sistema voltasse a conseguir se conectar com a SEFAZ, poderiam efetuar o pagamento. 

Nesta época estava colocando meus sistemas integrados de gestão (ERP) em um datacenter e havia justamente a preocupação de o que fazer se algo parasse – queria ver como os pioneiros no Brasil resolviam o problema. 

Hoje estamos totalmente na nuvem e tenho certeza que a Criatura virá a substituir o ERP, basta que estenda conectores para o SEFAZ e aprenda a emitir uma NF-e.

Podemos então pensar que na nova ética da empresa-ciborgue, os clientes estarão muito mais conectados e darão mais feedback sobre a empresa e seus produtos, assim como também o farão os seu lado humano, os colaboradores. É provável que, como preconizado por Fromm, McGregor, Maslow e outros, o autoritarismo dentro das empresas finalmente esteja com seus dias contados. Algo como a “gerência esclarecida” de Maslow (2000) precisará ser adotada para que as equipes possam trabalhar o aprendizado do lado máquina, para que a inteligência organizacional da Criatura seja aprimorada e a empresa-ciborgue seja mais competitiva e sobreviva.

Os dois lados da empresa-ciborgue se complementam

Iniciei e exponho a seguir, uma relação de itens, comparando o lado humano com o lado máquina da empresa-ciborgue:

Lado humano da empresa-ciborgueLado máquina da empresa-ciborgue
Grande possibilidade de erro, ilusão e incerteza.Baixa possibilidade de erro, ilusão e incerteza.
É um subsistema complexo.É um subsistema complicado.
Funciona de maneira imprevisível.Funciona de maneira previsível.
Alta “capacidade criativa”.Baixa “capacidade criativa”. Libera o lado humano para que tenha mais tempo e clima para ser ainda mais criativo.
Baixa capacidade de memória.Alta capacidade de memória.
Grande capacidade de aprendizagem, ampliada pelo seu lado máquina.Grande capacidade de aprendizagem dependente de seu lado humano.
Baixa capacidade de analisar grande quantidade de dados.Alta capacidade de analisar grande quantidade de dados.
Baixa capacidade de categorização.Alta capacidade de categorização.
Baixa capacidade de analisar muitos indicadores. Grande capacidade de analisar poucos e de ensinar ao lado máquina.Alta capacidade de analisar muitos indicadores. Aprende com o lado humano ou por observações de padrões.
Depende do seu organismo biológico.Não depende de seu organismo máquina, podendo realizar infinitos upgrades. Um só pode existir em vários organismos máquina ao mesmo tempo, mesmo estando muito distantes um do outro, por um processo chamado virtualização.
Vive no mundo real, só podendo se representar no mundo virtual por meio de seu lado máquina.Vive no mundo virtual podendo se representar no mundo real pelo seu organismo-máquina ou pelo seu lado humano.
Baixa capacidade de executar e manter regras de negócios.Alta capacidade de executar e manter regras de negócios.
Baixa capacidade de conexão com a internet.Alta capacidade de conexão com a internet.
Baixa capacidade de conexão com as coisas (IoT).Alta capacidade de conexão com as coisas (IoT).
Relativamente baixa capacidade de conexão com outros humanos.Alta capacidade de conexão com outros humanos.
Baixa capacidade de executar tarefas repetitivasAlta capacidade de executar tarefas repetitivas, sozinho ou por meio das coisas (IoT).
Decisões afetadas por sentimentos, emoções e afetos.Decisões totalmente racionais, baseadas na lógica aprendida.
Chega facilmente à exaustãoNunca chega à exaustão
Dependente de horários e círculos circadianos.Independente de horários e círculos circadianos.

Do que a criatura é capaz

Quando alguém me pergunta em que eu sou consultor, respondo que eu cuido da Criatura, que com ela ajudo a desenvolver empresas-ciborgues.

Do que a criatura é capaz? Penso que não há limites, e por outro lado coisas muito simples podem ser construídas se a criatura for tratada adequadamente. Deixe-me dar um exemplo prático:

Uma certa empresa oferece anúncios de vagas para as suas empresas clientes. Ela é bem sucedida, no entanto, quer crescer, gerar mais resultados. Seus concorrentes não são somente as empresas do setor de mídia que oferecem espaços para anúncios, são, principalmente, as empresas de RH que se propõem a fazer o processo de seleção para os mesmos clientes. 

Pensamos que a criatura poderia estender um de seus conectores para esta empresa, para desenvolver mais o seu lado ciborgue. Quando integrou a empresa, estendeu um de seus conectores para o banco de dados da própria empresa e teve acesso aos dados históricos de candidatos e de vagas. Verificou quais as vagas mais oferecidas. 

Estendeu outro conector para as principais empresas clientes e levantou os requisitos para as profissões/vagas mais procuradas. 

O lado humano e lado máquina se uniram na criação de um game que testa os candidatos nesses requisitos. A criatura incorporou o game e estendeu um conector interno para ele. Estendeu um conector para o site da empresa disponibilizando lá um link. 

Por meio do conector com as empresas clientes a criatura recebe as vagas, usando um conector com a internet publica as vagas e com outro, os candidatos se inscrevem na vaga e jogam o game. 

O conector interno com o game permite à Criatura a captura dos resultados que no seu banco de dados junta com os resultados de todos os candidatos, mais de uma centena em algumas vagas. Analisa e classifica, apresentando para as empresas clientes os candidatos com a melhor performance para cada vaga. 

Então, ampliando sua inteligência, passou a cruzar os dados da performance dos candidatos selecionados, agora colaboradores das empresas clientes e entender quais os problemas e situações que enfrentam e porque abandonam a empresa. Passou a ajudar as empresas clientes a reduzirem o seu turnover.

Também permitiu que o game fosse ajustado, correlacionando cada obstáculo/requisito com o resultado do candidato no ranking, com a sua performance e sua permanência ou não nas empresas clientes. Também o faz em relação ao perfil dos candidatos de uma certa vaga.

Num momento seguinte ampliou ainda mais, passando a ajudar os candidatos, permitindo que joguem outro game que os treina nos requisitos exigidos pelas empresas clientes para certa profissão/vaga. A criatura analisa a performance dos candidatos no game, comparando com todos os que já o jogaram, criando parâmetros de performance adequada ao comparar com aqueles que permanecem mais tempo nas empresas clientes.

Dada a abrangência geográfica e a velocidade com que a criatura consegue fazer tudo isso no mundo virtual, a empresa-ciborgue conseguiu: gerar mais valor para seus clientes; disponibilizar mais vagas para os candidatos e prepara-los melhor; expandir sua área de atuação; monetizar a valores mais baixos e; melhorar seus resultados.

Agora a criatura está estendendo seus conectores para que psicólogos e profissionais de RH possam disponibilizar às empresas clientes, seus serviços de entrevista e de avaliação psicológica efetuados à distância. As empresas clientes escolhem os profissionais com quem desejam trabalhar e a criatura controla a demanda para que possam acontecer muitas entrevistas e avaliações ao mesmo tempo, um dos problemas de qualidade das empresas de RH. Também permite que sejam aplicados uma variedade maior de testes.

Com os conectores com as empresas clientes e com os dados dos candidatos oferecidos às mesmas, a criatura está começando a comparar os diversos ambientes para indicar como a empresa se classifica em relação às demais, podendo trabalhar seus problemas internos. Uma espécie de ranking de clima organizacional que pode ser devolvida confidencialmente a cada empresa cliente.

Permita-me mais um exemplo extremamente simples: 

Em outra empresa-ciborgue minha cliente, a Criatura esta se alimentando de uma relação enorme de Representantes Comerciais de um segmento no qual se pretende entrar com produtos próprios a partir das mesmas competências essenciais que a empresa possui hoje, mas que dedica à prestação de serviços comoditizados. Cruzados os dados de informações destes representantes, em grande escala, proporcionará um canal largo de comunicação, de grande abrangência, permitindo que projete sem produzir – fazendo-o somente quando houver um pedido de venda -, produtos que gerarão valor aos clientes destas empresas comerciais e às próprias.

As empresas-ciborgues serão as sobreviventes

Não creio que todas as empresas-ciborgues irão sobreviver. Tudo vai depender do uso que se fará do lado máquina e do grau em que se fará isso. Mas as chances das demais empresas, que já é muitíssimo baixa, tende a se reduzir ainda mais na no era da indústria 4.0.

Veja o que acontece com as empresas de uma forma geral:

Caso você seja um empresário de pequena empresa, talvez deseje continuar dentro do seu sonho de empreendedor. Não tenho a intenção de estragar isso. Meu objetivo verdadeiro é que se possa enxergar um pouco mais de realidade. Que se possa perceber a empresa como um “Sistema Complexo Adaptativo” e se possa utilizar os recursos da metáfora da “Empresa-Ciborgue” para sobreviver aos novos tempos.

Observe a Tabela 1. São os dados do Departamento Nacional de Registro no Comércio, ou seja, a soma das Juntas Comerciais do Brasil. Praticamente todos os tipos de empresa existentes para serem constituídas ou extintas oficialmente, devem passar por aqui.

Com toda certeza você perceberá que a tabela só vai até 2012, isso é explicado mais a frente.

Alguma coisa lhe chama a atenção na Tabela 1? Se você verificar com atenção a coluna “Empresas Abertas” (Constituídas), perceberá que o número de empresas constituídas por ano no Brasil pouco se alterou, não importando que crise tenha acontecido ou que incentivo tenha sido dado para a abertura de novas empresas. Nos anos de 2008 e 2009 aparentemente a onda de crescimento do país, gerou um crescimento no número de empresas constituídas, mas é só.

Agora observe a coluna “Empresas Fechadas” (Extintas). Veja que o número de empresas fechadas ano a ano só vem crescendo, de forma desproporcional ao número de empresas constituídas. 

Até aqui observamos os dados oficiais, no entanto, todos nós sabemos que grande parte das empresas que encerram suas atividades, não dão baixa oficialmente. Isso acontece por diversos motivos: burocracia para encerramento, estar devendo impostos, pretender reiniciar atividades, entre outros. Vemos na tabela 2 (abaixo) como ficaria a situação, considerando que o percentual de empresas que encerram atividades, porém não dão baixa na junta comercial, seja de 50%. 

Vamos analisar a quantidade de empresas que fecham em relação à quantidade de empresas que abriram 5 anos antes, ou seja, das empresas que abriram 5 anos antes quantas empresas fecharam. Não conseguimos saber se as empresas que fecham são as mesmas que abriram 5 anos antes, é somente uma visão de uma forma diferenciada. 

Parei de fazer esta pesquisa ano a ano, de 2014 a 2017. Quando pretendi retomá-la, não encontrei mais o site que soma as informações de todas as Juntas Comerciais do Brasil. Os motivos pelo qual o órgão foi extinto e substituído não são muito claros e a informação de forma tão direta e fácil de interpretar não existe mais disponível. 

Sem surpresa, encontrei a matéria de Daniel Silveira no “G1 Rio” do dia 4 de outubro de 2017 que diz que, segundo o IBGE, por dois anos seguidos o Brasil fechou mais empresas do que abriu. A matéria apresenta que, em 2015, 708,6 mil empresas foram abertas e 713,6 mil foram fechadas no Brasil. Diz também que em 2014 foi a primeira vez que o IBGE registrou saldo negativo entre a abertura e o fechamento de empresas, com fechamento de 944 mil empresas e abertura de 726,3 mil.

Segundo o mesmo levantamento, apenas 37,8% das empresas que estavam ativas em 2015 existiam há cinco anos no mercado. De acordo com o estudo, 733,6 mil empresas foram criadas em 2010 – este número não fecha com a informação da minha pesquisa -, das quais, 551,2 mil (75,1%) sobreviveram um ano, 461,5 mil (62,9%), até dois anos; 395,4 mil (53,9%), três anos; 326,8 mil (44,6%), quatro anos e 277,2 mil (37,8%) sobreviveram até 2015. 

Isto representa 62,2% de fechamento oficial. Estatisticamente tudo isso poderia ser “adivinhado”, mas como diz um grande pensador, “o ser humano suporta muito pouca realidade”.  

O Sebrae publicou em 2007 uma pesquisa por amostragem, das principais causas de encerramento de atividade de empresas. Convido você a fazermos uma pequena análise da lista publicada.

  • 29% – Falta de clientes
  • 22% – Carga tributária/encargos/impostos
  • 13% – Falta de capital de giro
  • 11% – Divergências com sócio/proprietário
  • 11% – Dificuldade financeira
  • 10% – Falta de conhecimento da área de gestão
  •  8%  – Baixo lucro
  •  6%  – Má localização da empresa
  •  6%  – Desinteresse na continuação do negócio
  •  5%  – Falta de profissionais/mão-de-obra qualificada
  •  5%  – Maus pagadores/inadimplência
  •  5%  – Concorrência
  •  4%  – Burocracia
  •  4%  – Crise econômica do país
  •  1%  – Falta de crédito
  •  1%  – Desconhecimento do mercado
  •  2%  – Outras
  •  2%  – NS/NR

Perceba que esta parece ser uma relação de consequências e não de causas. Melhor ainda, estou querendo dizer que não podemos utilizar somente o pensamento linear – relações simples de causa e consequência – para entender uma empresa, seu funcionamento, suas interações e sua “vida”. Muito menos podemos através deste tipo de pensamento, explicar sua morte.

Podemos afirmar que as empresas não quebram diretamente por estas causas, mas por vários motivos que juntos criam estas consequências, além de outras. Podemos afirmar também que estas e outras consequências retroagem sobre as causas que as geram, realimentando-as. 

Vamos refletir, usando percentuais “simbólicos”: A questão talvez seja ainda pior: Das empresas que sobrevivem mais de 5 anos, 50% se arrasta, “vende o almoço para comprar a janta”. Sobra um pequeno percentual de empresas que, financeira e economicamente vão muito bem, obrigado. Mas isso não significa que o líder vá bem. 50% dos líderes de empresas bem sucedidas, não são felizes. 

Talvez a forma como pensamos sobre nossas empresas deva mudar caso desejemos mudanças nos resultados obtidos. Quando a morte alcança nossas empresas, recebemos antes inúmeros avisos, mas não conseguimos percebê-los dentro dos pressupostos que geram nossa atual forma de pensar.

Nas palavras de Fromm (1974, p. 28): “O fato de milhões de criaturas compartilharem os mesmos vícios não os transforma em virtudes, o fato de elas praticarem os mesmos erros não os transforma em verdades […]”.

Conclusão

O que trago aqui é que, atuando por meio da Internet das Coisas (IoT), de Big Data e Mineração de Dados, de Gestão por Processos baseada na  Computação Cognitiva por Atuação, da Inteligência Artificial e Aprendizagem de Máquina, e da Computação em Nuvem, a Criatura ajuda as empresas-ciborgues a sobreviverem nesta 4ª revolução industrial, seja internamente, em todos os seus processos, criando aquilo que chamamos de IOP – uma Plataforma de Inteligência Organizacional; seja direcionada para a geração de valor aos clientes, ajudando as empresas-ciborgues a se posicionarem na nova Outcome Economy (Economia de Resultados), onde apenas fornecer um produto ou serviço já não basta. 

Sei que estamos diante de um paradoxo, que a era da indústria 4.0 gerará mais desemprego, mas a empresa-ciborgue mantendo-se viva, apesar de mais enxuta, se comparada estatisticamente com as empresas que já fecham mesmo antes desta quarta onda nos atingir, reduzirá o desemprego.

Claro está que muitas empresas fazem o que parece até ser um caminho contrário, em plena pós-modernidade, seja lá por que motivo for. Em tempos de bitcoin – moeda virtual criptografada (criptomoeda) descentralizada -, a lanchonete ao lado de meu consultório, em Joinville-SC, onde às vezes tomo um café pela manhã, não aceita cartão de crédito, assim como vários estacionamentos ao redor do Mercado Municipal de São Paulo também não. 

Tudo é estatístico, uma questão de percentual de empresas que sobreviverão. Mas quase tudo o que se usa atualmente, se cruzado com os dados que apresentei sobre a mortalidade de empresas, mostram que necessitamos de alternativas.

Nenhuma das tecnologias empregadas na Era da Indústria 4.0 é exatamente nova, muitas tem evoluído ao longo do tempo e, mesmo empregadas isoladamente, parecem melhorar em algum grau os resultados. A questão parece ser: quando alinhadas na direção da geração de valor ao cliente, permitem muito maior impacto positivo, tornando as empresas mais competitivas. O outro lado da questão é: as empresas que não criam modelos de negócios inovadores, acompanhando a perspectiva da Outcome Economy, podem desaparecer frente ao modelo de negócios dos concorrentes globais. Netflix e Espotfy estão aí só para iniciar uma interminável lista.

Há ainda uma terceira face, a da democratização iniciada pela internet e continuada por tudo o que se cria open source – software aberto com licenciamento livre.  Qualquer um, eu disse qualquer um, consegue iniciar um negócio utilizando-se de tecnologias de ponta, investindo somente seu tempo. 

Temos que parar de olhar tudo isso sob a ótica de curiosidade do senso comum e passar a utilizar em nossas empresas. Carros sem motorista e entregas por drone já deixaram de ser ficção e passaram a fazer parte de negócios. Meu avô nunca usou uma calculadora e meu pai praticamente nunca usou um computador. 

Você deve ter percebido que quase não falei do lado humano da empresa-ciborgue, e claro, como psicólogo tenho grande interesse em como tudo isso afeta nossa subjetivação, como define nossa identidade. Trato deste assunto com todo o cuidado em meu livro “Empresa-Ciborgue: Sobrevivendo na 4ª Revolução Industrial”.

Referências

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FROMM, Erich. Psicanálise da sociedade contemporânea. 7ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editora, 1974.

GOLDBERG, Elkhonon. O paradoxo da sabedoria. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2006.

GRAFF, Gerald; BIRKENSTEIN, Cathy. Eles falam/eu falo: um guia complete para desenvolver a arte da escrita. 2ª ed. Ribeirão Preto, SP: Novo Conceito Editora, 2011.

HARAWAY, Donna J. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013

KUNZRU, Hari Genealogia do ciborgue. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013

MASLOW, Abraham H. Maslow no gerenciamento. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2000.

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PAVANI Jr., Orlando; SCUCUGLIA, Rafael. Mapeamento e gestão por processos – BPM. São Paulo: M. Books, 2011.

SEABRA, Alessandra Gotuzo et al. Inteligência e funções executivas: avanços e desafios para a avaliação neuropsicológica. São Paulo: Memnon, 2014.

SINCLAIR, Bruce. IoT: como usar a internet das coisas para alavancar seus negócios. São Paulo: Autêntica Business, 2018.

VARELA, Francisco; THOMPSON, Evan; ROSCH, Eleanor. A mente corpórea: ciência cognitive e experiência humana. Lisboa-Portugal: Instituto Piaget, 1991.

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Décio Marcellino

Décio Marcellino

Desenvolvedor de games empresariais e educacionais, plataformas e aplicativos, com a utilização de ciência de dados, andragogia, aprendizagem significativa, psicoeducação e socionomia. Consultor em crescimento, recuperação e bem-estar de empresas conduzindo processos de ciborguização e implantação de modelo de negócio socionômico com a utilização de dialógica e pensamento complexo.
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