Mantive um termo antigo no título, que poderia ser “Transtorno de Ansiedade”, para chamar atenção e para que você não pense no nível da patologia, mas da normalidade, se for capaz de defini-la. Sobre a forma patológica, em 1948 o nome era “Psiconeurose” para a Associação Americana de Psiquiatria, com a segunda edição do DSM passou a ser chamada “Neurose” e com a terceira edição em 1980, a designação passou a ser “Transtorno de Ansiedade”, termo mantido até os dias de hoje (STOSSEL, 2014). 

Vou preservar o termo “Neurose” e apresentá-lo sob o ponto de vista de Karen Horney (1885-1952), uma psicanalista alemã que migrou para os EUA e que questionou  várias partes das teorias tradicionais de Freud.

Neurose pode ser uma “momentânea desadaptação a uma determinada situação difícil” (p. 18) que pode ocorrer a indivíduos sem afetar sua personalidade, como uma reação externa conflituosa, a qual Horney (1974) denomina “neurose de situação”. Mas há reações desadaptativas, difíceis de serem distinguidas dessa primeira, as quais Horney nomeia como “neuroses de caráter”, que se diferenciam justamente por conterem uma deformação do caráter. Trata-se de um processo crônico, como uma repetição, que tem seu início, a princípio, na infância, que abarca certa porção da personalidade numa certa intensidade, variando de indivíduo para indivíduo. 

A questão é que se olharmos superficialmente, poderá parecer que uma neurose de caráter surgiu de um conflito ou situação real mais no presente, no entanto, um exame meticuloso por meio da história de vida da pessoa provavelmente mostraria que os traços difíceis do caráter já estavam presentes muito anteriormente, ou seja, que o trato do indivíduo com a situação presente já traz dificuldades pessoais existentes previamente. Então, o que Horney nos diz é que a pessoa reage neuroticamente à situação, o que denuncia que a neurose já estava instalada afetando o funcionamento de sua personalidade.

Percebo, em mim mesmo e em pacientes e grupos, que todos nós temos neuroses instaladas que afetam nossas personalidades, tudo parece ser apenas uma questão de grau, de intensidade e de partes da personalidade, maiores ou menores, afetadas. Quem nunca reagiu de forma diferente daquela que conscientemente gostaria? Quem nunca reagiu desproporcionalmente a uma situação de conflito? Mas a pergunta principal é: quem não fez isso repetidamente, deixando claro que a neurose não tinha uma relação direta com a situação que estava se apresentando?

“As deformações da personalidade são uma constante das neuroses, ao passo que os sintomas, na acepção clínica, podem diferir ou simplesmente estar ausentes” (HORNEY, 1974, p. 19). A autora tenta nos mostrar que alguém pode ter neuroses profundas, com gravíssimas alterações da personalidade, sem que qualquer sintoma clínico seja externado. De uma forma popular eu poderia questionar: como você então diferencia entre as pessoas que considera normal e aquelas que acha loucas? Mais ainda, porque você pensa que está enxergando o mundo como ele é, que os outros estão errados, se você não consegue perceber que o que você valoriza, diz ser, a forma como age, aquilo que pensa, a maneira que fala, etc., podem ser oriundos, e digo que sempre o são em maior ou menor grau, de um psiquismo afetado, de um caráter afetado e, portanto, de uma personalidade afetada?

Procuramos ajuda contrariados e depois de muita tentativa de convencimento por parte dos que nos cercam. O fazemos porque os sintomas se apresentam de forma contundente. Também porque percebemos as consequências de nossos atos ou pensamentos, pelo menos a pequena parte que nos é possível observar.

Apesar de a tendência ser uma procura pela origem e de se admitir que, sim, é necessária uma busca na infância às origens dos conflitos que geram as neuroses, o que se verifica também, é que a maioria dos indivíduos de uma dada cultura tem de enfrentar os mesmos problemas, o que sugere que “tais problemas foram criados por condições específicas de vida existentes nessa cultura” (p. 21), ou seja, não representam problemas comuns à natureza humana. (HORNEY, 1974)

Uma sugestão que temos em mãos é a de estudarmos uma cultura, uma região, uma cidade, um bairro, uma organização como uma empresa, um grupo, “sob o ponto de vista de quais dificuldades psíquicas que sua estrutura cria para os indivíduos” (HORNEY, 1974, p. 22).

Horney (1974) classifica algumas atitudes observáveis que podem nos auxiliar. Como curiosidade lembre-se que originalmente isso foi publicado em 1937. Pense em quanto aumentou a neurose de lá até os dias de hoje. São elas: 

1. Atitudes relativas a dar e obter afeição – É um dos traços predominantes nos neuróticos.  “Apesar de todos querermos ser estimados por pessoas de quem gostamos, nos neuróticos há uma fome indiscriminada de apreciação ou afeição […]” (p. 22). 

Interessante é que os neuróticos querem a atenção mesmo de pessoas pelas quais não se interessam e mesmo que as opiniões dessas pessoas não importem para eles. Sentem-se magoados com coisas banais, como alguém não telefonar por algum tempo, não aceitar um convite ou discordar em algum assunto. Mas essa sensibilidade pode aparecer sob uma roupagem de “pouco me importa”. 

Os neuróticos apresentam uma contradição, nem sempre visível, entre seu desejo de afeição e sua falta de consideração para com os outros. Podem mostrar-se muito atenciosos e ávidos por ajudar, mas é possível notar que o fazem compulsivamente e não de forma espontânea.

2. Atitudes relativas à avaliação do próprio eu – Possuem sentimentos de inferioridade e de inadequação. Pode ser na forma de convicção de incompetência, de estupidez, de feiura, muitas vezes sem nenhuma justificativa real. Podem se perceber sem atrativos apesar de serem pessoas atraentes, podem se perceber ignorantes apesar de serem inteligentes. Isso pode aparecer na forma de queixas ou preocupações ou pode ser aceito como natural, não cabendo pensarem a respeito. 

Ao mesmo tempo esses sentimentos podem estar encobertos por necessidades compensadoras de autoengrandecimento e propensão compulsiva ao exibicionismo, tentando impressionar aos outros e a si mesmos com atributos valorizados na cultura, como dinheiro, posses culturais, contatos sociais com pessoas eminentes, companhia de mulheres – em 1937 não se falava no oposto -, viagens ou conhecimentos elevados.

3. Atitudes relativas à autoafirmação – Diz respeito ao ato do indivíduo de impor ou defender suas pretensões, abrange inibições explícitas. Os neuróticos tem inibições quanto a manifestar seus desejos, pedir alguma coisa, fazer alguma coisa em proveito próprio, expressar uma opinião crítica, dar ordens a alguém, escolher pessoas com quem se associar, travar relações, etc. 

Os neuróticos não conseguem se defender contra ataques ou de não concordarem com os desejos do outro, como quando um vendedor que lhes quer vender algo que não querem comprar, uma pessoa que convida para uma festa, uma pessoa que os queira namorar. 

Ha também uma inibição quanto a saber o que se quer: dificuldade para tomar decisões, formar opiniões, expressar os próprios desejos que acabam tendo que ser disfarçados, incapacidade para se planejar, seja uma pequena viagem ou sua vida. Deixam-se levar, mesmo em decisões importantes como casamento ou escolha da profissão. 

São impelidos, exclusivamente, por medos neuróticos, como por exemplo aquelas pessoas que amontoam dinheiro com medo da pobreza ou aquelas que vivem intermináveis casos amorosos por temer enfrentar um trabalho construtivo.

4. Agressividade – Em contraste com o citado no item três, são ações dirigidas contra o outro, inclui ataques, desdém, abuso de direitos e outras formas hostis. 

Manifesta-se de duas formas: uma propensão para ser agressivo, dominador, muito severo, mandão, trapaceiro ou estar sempre ralhando. Às vezes conseguem perceber-se agindo desta maneira, mas frequentemente não se dão conta, convencidas de que estão apenas sendo honestas em expressar suas opiniões ou sendo moderadas em suas reivindicações. 

O segundo tipo de manifestação é oposta: na superfície percebe-se uma atitude de, facilmente, sentirem-se burlados, dominados, repreendidos, importunados ou humilhados. Projetam no mundo sua atitude, crendo que o mundo está contra e lhes quer tirar proveito.

5. Sexualidade – Refere-se a uma necessidade compulsiva de atividade sexual ou a inibições de exercer essa atividade. As inibições podem surgir em qualquer passo que conduz à satisfação sexual: na aproximação de possíveis parceiros, durante a relação sexual ou na hora do gozo. Todas as peculiaridades citadas nos demais itens podem aparecer neste.

Tudo o que foi mencionado poderia ser verificado em detalhes ainda menores e mais sutis. Um psicoterapeuta irá buscar observar os processos dinâmicos implícitos que originam essas manifestações para tentar entender como todas essas atitudes, aparentemente incoerentes, estão, na realidade, estruturalmente inter-relacionadas. 

Também podemos fazer um exercício de nos percebermos, verificando que todos nós, dentro de nossa “normalidade”, temos em maior ou menor grau, um pouco de várias dessas questões. E, sob essa influência, tomamos todas as nossas decisões do dia a dia, seja no âmbito pessoal ou profissional.

REFERÊNCIAS

HORNEY, Karen. A personalidade neurótica de nosso tempo. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A. 1974. Publicado originalmente em 1937.

STOSSEL, Scott. Meus tempos de ansiedade: medo, esperança, terror e busca da paz de espírito. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

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Décio Marcellino

Décio Marcellino

Desenvolvedor de games empresariais e educacionais, plataformas e aplicativos, com a utilização de ciência de dados, andragogia, aprendizagem significativa, psicoeducação e socionomia. Consultor em crescimento, recuperação e bem-estar de empresas conduzindo processos de ciborguização e implantação de modelo de negócio socionômico com a utilização de dialógica e pensamento complexo.
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