Você já ouviu falar que temos dentro de nós um cachorro bom e outro mau e que vai sobreviver aquele que decidamos alimentar? Que me desculpem os índios que criaram esse ditado. Eu penso que um único cachorro mora dentro de nós, não concordo que sejam  dois e nem que possamos escolher qual deles alimentar. Temos um único cachorro que pode, na maioria do tempo ser bom, mas que às vezes, ou muitas vezes, faz coisas ruins ou tolas que sequer consegue perceber. 

Este único cachorro deve ser instruído e treinado sempre, mas não deve ser exigido para muito além de sua capacidade e, principalmente, não deve se estressar de forma contínua.

Ele tem que ser bem alimentado, porque a alimentação parece ter uma influência no seu comportamento. Quando come muita porcaria industrializada, passa mal, engorda além da conta, adoece. Tem dias que ele come demais, gosta do que tem açúcar e gordura e, se deixarmos, isso vira um hábito. Quando a sua serotonina está muito baixa, ele parece aquele cão negro do vídeo, lembra? E que não adianta lhe explicar que a serotonina vem da alimentação adequada.

Ele deve fazer atividade física, porque isso também tem grande influência. Você provavelmente terá que obriga-lo, ele sozinho só quer ficar no sofá assistindo sua TV. Ele vicia fácil em coisas prazerosas, mesmo que lhe façam mal, mas também vicia em coisas boas se o ensinarmos.

Algumas vezes se solta, foge, faz coisas que os vizinhos percebem e vem nos contar, e cobrar, que sequer acreditamos que tenha feito. Só o conhecemos totalmente, baseado no que os outros nos contam que faz. Quando isso se repete muitas vezes, é bom acreditar que é assim que ele se comporta.

Outras vezes ele olha com cara feia e ameaçadora para os vizinhos. No entanto, como eles tem medo, quando perguntamos a esses vizinhos se algo está errado com nosso cachorro, eles, temerosos da reação, preferem dizer que está tudo bem. Alguns parecem um pittbull, mas são dóceis como um pug, outros são como um pinscher, mas sentem-se como  um rottweiler. Tudo aparência, a maior parte da agressividade que demonstram serve para esconder o seu medo.

Quando ele adoece, queremos que se cure rapidamente e, inocentemente, tentamos de tudo, muitas vezes com fórmulas mágicas que prometem a cura ou que nos dizem que a causa está em outro lugar e não nele. Isso é apaziguante, mas resolve o problema só por um tempo. Quando o problema volta, nossa tendência é repetir o processo, e não percebermos que desta forma nosso cachorro continua doente.

Sempre há alguém que tem um cachorro que invejamos ou admiramos, ou ambos; e sempre há alguém que tem um cachorro que odiamos, pelo qual sentimos mesmo uma raiva gratuita. De fato, não existem dois cachorros iguais, e cada um é mais ou menos compatível com o outro. O que precisamos, minimamente, é que ele respeite o cachorro dos outros. 

O meu tem uns truques, que olhando de fora parecem mal treinados, fica até engraçado, mas ele pensa que está abafando. Mesmo assim, às vezes, ele engana os outros e mesmo a mim por um longo tempo. Deixa eu te contar alguns dos truques dele: 

  • Como ele faz umas coisas muito bem e em outras é um fracasso, ele empenha-se em se sair muito bem no primeiro tipo para compensar as do segundo.
  • Algumas vezes, parece que por reprimir seus sentimentos, ele  se queixa de alguma coisa física.
  • Outras vezes, ele age como se se recusasse em acreditar em algo verdadeiro. Faz algumas coisas estranhas e até perigosas, negando a realidade, os fatos e as evidências em contrário.
  • Ele também já preferiu aplaudir outro cachorro ao invés de mostrar seu potencial;
  • Uma vez ele tentou imitar outro cachorro, parecia que queria ser como ele;
  • Quando ele cometia um erro ou falha em alguma coisa, apontava para os outros cachorros, como se quem tivesse cometido o erro fossem eles;
  • Já o vi parecer querer se justificar, inventando razões que são verdadeiras em si mesmas, mas ele as usou de modo indevido.
  • Também já pareceu sentir uma coisa, mas assumiu um comportamento completamente oposto.
  • Algumas vezes ele parece até querer dizer alguma coisa, mas vejo que bloqueia seus pensamentos e desejos.
  • Também, às vezes, age como se tivesse voltado a ser um filhotinho.
  • Ele já se comportou numa situação como se estivesse em outra, ficou estranho, como alguém que, sem querer, dá os parabéns num enterro.

Ele usa vários outros truques, esses que eu listei foram os que consegui perceber, mas vejo que preciso prestar atenção o tempo todo, porque meu cachorro é um pouco estranho. Mesmo assim gosto muito dele, acho que já acostumei. Penso que se consigo perceber seus truques, posso cuidar melhor dele e saber do que precisa.

Isso tudo assusta um pouco e algumas pessoas até temem perder o controle de seu cachorro, afinal, quem já não ouviu falar de um cachorro que tenha ficado louco.

De tanto lidar com o seu, a maioria das pessoas já se considera entendida de cachorros, isto as habilita a darem conselhos para as outras pessoas, sobre como devem tratar seus cachorros. Mas como elas estão muito ocupadas em fazer o bem aos demais, acabam pouco fazendo por seu próprio cachorro.

Quando as pessoas se relacionam, seus cachorros brincam juntos, mas quando elas casam, eles precisam morar juntos, para sempre. Isso pode ser um problema para alguns cachorros, treinados de certa maneira durante muitos anos, desde o nascimento. Agora precisam se adaptar a um modo diferente, onde não serão o centro das atenções, que precisarão ser divididas.

Logo, logo, nascem os filhos, e cada um deles tem seu próprio cachorrinho, que não vem com manual. É preciso muito amor, mas é necessário aprender a cuidar do cachorrinho deles enquanto não conseguem faze-lo sozinhos, para isso é necessário entender com se dá o seu desenvolvimento.

Algumas pessoas tem um cachorro todo machucado, que precisa de maiores cuidados. Outras possuem um cachorro que vive procurando se machucar, e não conseguem explicar porque ele age assim.

Alguns desses cachorros passam noites acordados, sem conseguirem pregar o olho, e uivando para a lua. E seus donos também não conseguem explicar.

Para piorar a vida desses cachorros, a sociedade estabeleceu padrões de comportamento para cachorros, mas muitos deles sofrem ao não conseguir se adaptar a esses padrões. Seus donos tentam treiná-los, em vão. Parece que isso aumenta seu sofrimento. 

Às vezes queremos esconder uma parte do nosso cachorro e só mostrar a parte da qual nos orgulhamos, outras vezes queremos mostrar somente a parte do cachorro que se adequa ao padrão estabelecido pela sociedade para os cachorros. Tudo isso faz nosso cachorro ficar ainda mais triste, apesar de muitos cachorros fingirem estar felizes.

Certos donos querem criar o seu cachorro sozinhos, afastam-se dos outros donos de cachorros, enquanto outros percebem que seus cachorros se sentem sozinhos e gostariam de aproximá-lo de outros cachorros, mas não sabem como proceder.

Alguns donos de cachorro chegam a pensar em mata-lo para parar seu sofrimento, eles fazem isso porque não conseguem pensar em outras alternativas. Mas, acredite, elas existem. Muitos deles descobrem isso somente depois de tentarem e não ter dado certo. A verdade é que esta possivelmente nunca será a melhor solução, porque ao matar seu cachorro, o dono morre junto.

Como você pode perceber, cada um tem um cachorro diferente, apesar de poderem ser observados certos padrões.

É preciso perdoar o que seu cachorro já fez de errado, ele sempre poderá recomeçar, aprender algo novo. Capacidade nunca lhe falta. Você precisa acreditar no seu cachorro. Defeitos, se procurar bem, e às vezes nem é preciso procurar muito, todos os cachorros tem. A única regra que vale para todos é: você tem que evitar que seu cachorro faça mal a outro cachorro e a ele mesmo.

Não pretendi aqui ensinar ninguém sobre como cuidar de seu cachorro, confesso que às vezes tenho dificuldades em cuidar do meu. Só quis mostrar que não temos dois cachorros, não temos a opção de alimentar um e ignorar o outro, porque na verdade é um só e, se você não o alimentar ele achará comida sozinho, roubará e matará por ela se for preciso.

Se seu cachorro se perder, sente e fique em silêncio, respire, caminhe, fale com os amigos, dê um tempo, ele provavelmente o encontrará.

Mas se você não estiver conseguindo lidar com seu cachorro, saiba que isso também é relativamente normal de acontecer. Nesse caso, não tenha vergonha, tal como o fazem outros donos de cachorro, procure um especialista. Tem gente que se dedica a estudar os cachorros, justamente para ajudar quem precisa e não está conseguindo cuidar sozinho do seu.  

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Décio Marcellino

Décio Marcellino

Desenvolvedor de games empresariais e educacionais, plataformas e aplicativos, com a utilização de ciência de dados, andragogia, aprendizagem significativa, psicoeducação e socionomia. Consultor em crescimento, recuperação e bem-estar de empresas conduzindo processos de ciborguização e implantação de modelo de negócio socionômico com a utilização de dialógica e pensamento complexo.
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