Buscar as causas dos problemas de nosso negócio e de nossa vida profissional dentro de nós mesmos é um ato de coragem.

Décio Marcellino

Este artigo pretende ser um convite, um alerta e um auxiliar, no sentido de os empresários, executivos e profissionais liberais, poderem olhar para dentro de si na busca de solução de seus conflitos organizacionais ou profissionais. Traz uma definição para normalidade e dentro da visão culturalista e neofreudiana de Karen Horney, tenta definir a neurose.

Pode haver um momento na vida do empresário, executivo ou profissional liberal, em que uma neurose, ou algum outro transtorno, se estabeleça. Sua manifestação externa, no entanto, não se dá necessariamente na forma de um adoecimento tal qual o conhecemos. Difícil de aceitar e de admitir, mas é o momento de buscar ajuda profissional, com base científica. Não cabe ficar discutindo como poderia ser seu negócio ou empresa, tentar pensar positivamente ou apelar para soluções místicas, mas de aprofundar nos conflitos inconscientes causadores e, minimamente, retomar sua funcionalidade a adaptabilidade profissional, familiar e social. E, por que não, buscar um bem-estar, às vezes, de fato nunca vivido.

Porém, é mais difícil ainda sabermos quando, em nossa cultura, as coisas saíram do normal.

Não podemos ignorar que a maioria das pessoas que possui alguma desorganização comportamental estejam no mundo do trabalho e não em instituições especializadas para serem tratadas. Quando temos um mal-estar físico, procuramos, na maioria das vezes, tratá-lo ou temos a atenção dos que nos cercam, que nos abordarão com respeito e cuidado. No caso de problemas psicológicos o mais comum é esconde-los por receio de ser tratado de maneira pejorativa ou qualificado como fraco ou louco, o que está longe de ajudar a solucioná-los, podendo gerar ainda mais ansiedade e angústia e até levar a dificuldades ainda maiores. (BERGAMINE e TASSINARI 2008)

O que é normalidade?

Aquilo que é normal varia com a cultura e também dentro da mesma cultura ao longo do tempo. Também muda nas diferentes classes sociais e com a diferença de sexo. A questão é que a mudança diz respeito não somente a costumes, mas a impulsos e sentimentos, mesmo que toda cultura tenha boas razões para aferrar-se a crença de que seus próprios sentimentos e impulsos são a única expressão normal da natureza humana. Muito do que consideramos inerentes à natureza humana, são ingenuidades se considerarmos as descobertas antropológicas nas diferentes culturas. (HORNEY, 1974)

Por exemplo, em nossa cultura o normal diz respeito a uma configuração de condutas que subentende o desejo de progredir na vida, de passar na frente dos outros, de ganhar mais dinheiro do que o mínimo indispensável. (HORNEY, 1974) Guarde estas três palavras: poder, prestígio e posse.

Para Bergamine e Tassinari, o protótipo do normal não existe, é apenas um tipo de abstração criada pelos que se dedicam ao estudo do desajustamento humano, uma inferência a partir do estudo dos desvios de conduta. Basta verificar que na vasta literatura sobre o comportamento humano, nenhuma obra se dedica unicamente ao estudo e descrição do comportamento normal. Os mesmos autores questionam: quem não possui manias, distorções perceptivas da realidade, crendices, rituais bizarros ou superstições! E principalmente: considerando que cada um olha para o mundo por uma janela que é só sua, quem possui a certeza de que está enxergando o mundo, com as coisas e pessoas, como ele realmente é! Neste caso, anormalidade seria a forma particular de perceber e interpretar o mundo a partir de parâmetros próprios de cada um. (BERGAMINE e TASSINARI 2008)

A questão principal aqui é que há pouca compreensão de que, de cultura para cultura há variações não somente de costumes, mas também em impulsos e sentimentos e, vivendo na nossa cultura, pensamos que nossos sentimentos e impulsos são a única expressão normal da natureza humana. A cultura, portanto, molda nossos sentimentos e atitudes de maneira muito profunda e as neuroses seriam desvios da configuração normal de conduta estabelecida em nossa cultura. Precisamos reconhecer que alguns de nossos conceitos sobre a natureza humana, como competição, rivalidade fraterna e a afinidade entre a afeição e a sexualidade, são ingênuos. Nossa concepção de normalidade nasce da aprovação de certos padrões de condutas e sentimentos impostos dentro de um grupo social. Os padrões, porém, variam com a cultura, a época, a classe social e o sexo. (HORNEY, 1974)

Mas, então, o que seria um neurótico?

Neurose é um termo proposto em 1769 pelo médico escocês William Cullen (1710-1790) para definir as doenças nervosas que acarretavam distúrbios da personalidade. Foi popularizado na França por Philippe Pinel (1745-1826) em 1785. Retomado como conceito por Sigmund Freud a partir de 1893, o termo é empregado para designar uma doença nervosa cujos sintomas simbolizam um conflito psíquico recalcado, de origem infantil. Na psicanálise, o conceito evoluiu até ser posicionado ao lado da psicose e da perversão. A partir da década de 1950, esse modelo freudiano foi questionado, em especial nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, com o aparecimento de estados-limites como a noção de borderline e com novas concepções da neurose. Temos hoje, uma série de subdivisões da neurose, assim com diversas teorias a respeito. (ROUDINESCO e PLON, 1998)

Horney (1974) diz que um neurótico se diferencia dos indivíduos comuns dentro de uma certa cultura ou grupo, em suas reações. Imagine, por exemplo, alguém que recuse um aumento de salário. Um critério para saber o que é um neurótico consiste em verificar se seu modo de vida coincide com as configurações de condutas consagradas numa certa cultura.

Mas não é fácil definir o que é um neurótico porque, apesar de uma neurose se constituir em um afastamento do normal, isso pode acontecer sem que uma pessoa seja neurótica e, por outro lado, uma pessoa com uma neurose grave pode ajustar-se aos padrões de vida existentes e passar desapercebida (HORNEY, 1974). Olhando-se apenas para os sintomas externos, é difícil definir o que há de comum entre todos os tipos de neuroses, mas Horney sugere duas características importantes que podem ser constatadas em todas as neuroses: “uma certa rigidez das reações e uma discrepância entre as potencialidades e as realizações.” (1974, p. 12)

Rigidez das reações – diz respeito à falta da flexibilidade que nos permite reagir, diferentemente, diante de situações diversas. Essa rigidez só indica uma neurose quando se afasta dos padrões culturais. Vejamos algumas possíveis situações: a pessoa normal é desconfiada quando percebe razões para tanto, a pessoa neurótica mostra-se desconfiada todo o tempo; a pessoa normal pode distinguir entre cumprimentos sinceros e insinceros, enquanto a neurótica não os diferencia ou pode despreza-los a todos, em todas as situações; quando submetida a uma imposição injustificada a pessoa normal ficará com raiva, já a pessoa neurótica pode reagir rancorosamente a qualquer insinuação, mesmo que perceba que esta é em seu benefício; diante de um assunto importante e de difícil decisão a pessoa normal pode ficar fica indecisa, a neurótica pode permanecer sempre indecisa. (HORNEY, 1974)

Discrepância entre as potencialidades e as realizações concretas – apesar de poder dever-se a fatores externos, será um indício de neurose se, a despeito dos talentos ou habilidades e de condições externas favoráveis ao seu desenvolvimento a pessoa permanecer improdutiva; ou se, a despeito de ter todas as possibilidades para sentir-se feliz, não consiga desfrutar o que tem. (HORNEY, 1974)

Há ainda uma outra questão importante, uma característica essencial das neuroses, que havia sido considerada por Freud como componente indispensável: a presença de tendências contraditórias, cuja existência ou conteúdo exato, o próprio neurótico não consegue perceber. Para essas tendências contraditórias, tenta obter de forma automática, soluções conciliatórias que geram um grande sacrifício para a personalidade, pois para o neurótico os conflitos – existentes em qualquer pessoa – são mais intensos e acentuados. (HORNEY, 1974)

Para Kets de Vries (2010), cerca de 20% da população são pessoas que estão perfeitamente bem – boas famílias, frustrações apropriadas à sua idade durante a fase de crescimento, pais bondosos e compreensivos, etc. – e há 20% de desafortunados – cresceram cercados por violência, abuso, alcoolismo e coisas ainda piores -, sendo que, através de alguém que se importe com a criança ou alguma situação que lhe gere resiliência ou capacidade de recuperação, poucos conseguem escapar disso. Todo o “restante” de nós somos mais ou menos neuróticos, situados em algum ponto no meio disso.

O termo neurose diz respeito à existência de um conflito psíquico inconsciente que gera uma grande quantidade de ansiedade e se expressa por meio de diferentes combinações de sinais e sintomas físicos e psíquicos. A neurose seria, então, a incapacidade de resolver adequadamente os conflitos inconscientes existentes no psiquismo. Os sintomas são experimentados como inexplicáveis ou irracionais e o neurótico se sente assombrado diante de suas ansiedades, inibições, temores e ideias, que lhe surgem como pensamentos, mesmo em desacordo com o resto de sua personalidade, o que pode leva-lo a severas incapacitações em sua vida diária. No entanto a irracionalidade dos sintomas é apenas aparente, com um trabalho adequado, conseguindo aprofundar no seu inconsciente, aquilo que parecia desconexo e incompreensível, mesmo quando se expressa como alterações fisiológicas – sensação de nojo, vômito, contraturas, paralisia, cegueira, etc. -, se mostra claro, compreensível e vinculado com o conjunto de sua personalidade. (CODERCH, 1999 apud BERGAMINI e TASSINARI, 2008)

As reações neuróticas são, fora da normalidade, a forma mais comum de resposta ao estresse, às tensões externas – da vida – e internas – do indivíduo. Elas derivam das reações insatisfatórias do indivíduo para com os demais, seja como resultado de algum déficit de desenvolvimento nos primeiros anos ou como resultado da luta diária no que se refere aos temas essenciais da existência humana. (CODERCH, 1999 apud BERGAMINI e TASSINARI, 2008) Considerados ai a sexualidade e os sentimentos moldados pela nossa cultura, como ambição, inveja, ciúme.

Tipos de Neuroses

Algumas configurações neuróticas são bastante conhecidas. Vamos olhar resumidamente três das principais:

Neurose histérica – poderá ser observado que apesar de inúmeras manifestações diferentes, há sempre traços da personalidade histérica. Os apresentados a seguir também podem ser encontrados em indivíduos considerados normais, como em indivíduos que sofrem de outras afecções neuróticas ou psicóticas. Os sinais e sintomas histéricos são psicogênicos – não há algo somático que os origina – e possuem como característica o fato de responderem a um propósito inconsciente por meio do qual a pessoa busca satisfazer um desejo primário, ou seja, o sintoma serve para expressar um impulso reprimido e as forças opostas ao mesmo (BERGAMINE e TASSINARI 2008)

Traços do comportamento:

  • Acentuado egocentrismo;
  • Apresenta sentimentos e emoções aparentemente intensos, porém sem profundidade real, volúveis e facilmente modificáveis;
  • Possui tendência a converter os conflitos internos em formas de comportamento externo, sem prever ou prevendo pouco as consequências;
  • Falta relativa de inibição e autocontrole limitado;
  • É teatral, tende a um comportamento dramático e a certo exibicionismo. Quer ser o centro das atenções e fantasia ser a estrela da festa
  • É bastante sugestionável e como resultado, possui tendência à imitação e à identificação superficial;
  • Muito pouco interesse por realizações profundas de ordem intelectual e estudos;
  • Como estilo cognitivo global, perde os detalhes, usa repressão e negação. Distratibilidade ou retenção original incompleta, sem muitos detalhes, o que parece indiferença. Faz um jogo de sedução inconsciente;
  • Suas relações com os demais são superficiais e inconstantes. Aparenta uma atitude de independência, mas tem uma debilidade e necessidade de proteção que se combinam contraditoriamente com autoritarismo e habilidade para manipular os outros.

Traços e mecanismos profundos da personalidade histérica:

  • Repressão primária;
  • Possui capacidade de transformação ou conversão de conflitos psíquicos em fenômenos somáticos.
  • Possui forte tendência à regressão;
  • Facilidade para a produção de estados de dissociação psíquica, o que implica corte e repressão de ideia se sentimentos. Esses sentimentos permanecem de maneira inconscientes, de modo que o portador da dissociação não reconhece aquilo que lhe diz respeito;
  • Usa muito mecanismos primitivos de defesa, como negação, incorporação, simbolização, idealização e formação reativa;
  • Pouquíssima capacidade para sublimar.

Neurose fóbica – neste transtorno emocional, como característica principal, a ansiedade causada pelos conflitos internos inconscientes é deslocada para estímulos fóbicos, seja de pessoas, animais, coisas, situações ou atos. É o que conhecemos como fobia. Vejamos seus traços e características. (BERGAMINE e TASSINARI 2008)

Traços e características:

  • Todos os itens listados anteriormente na neurose histérica aparecem na neurose fóbica, também chamada de neurose de angústia.
  • Quando um estímulo fóbico não pode ser evitado, sobrevém uma crise de ansiedade;
  • Desloca inconscientemente a ansiedade, transformada em medo, para um componente externo que poderá ser evitado pela fuga – evitação ou esquiva;
  • Os estímulos fóbicos podem ser: quanto a espaços fechados (claustrofobia), espaços abertos (agorafobia), altura (acrofobia), animais de certo tipo, escuridão (aleurofobia), etc.

Traços principais da personalidade:

  • Está sempre em estado de alerta em relação ao mundo exterior, o qual necessita controlar continuamente – na verdade o estado de alerta é mais intenso ainda em relação ao mundo interno;
  • Sente-se dominado pelo temor inconsciente de que os impulsos reprimidos possam irromper na consciência, o que desencadearia uma ansiedade insuportável;
  • Em consequência da projeção exterior do perigo interno dos impulsos reprimidos, mantém uma atitude de dúvida que antecipa a todo momento o surgimento de uma ameaça externa.

Neste caso, parece essencial trabalhar em psicoterapia os aspectos da patogenia da fobia: as fontes da ansiedade, a repressão dos conflitos internos, o deslocamento da ansiedade e a evitação, a eleição do objeto fóbico e o simbolismo, a projeção, a regressão e a agressividade.

Neurose Obsessivo-Compulsiva – nesta as ideias, sentimentos e impulsos não desejados pela pessoa se instalam em sua mente de maneira intrusiva provocando ideias obsessivas e desencadeando atos chamados compulsivos; apesar dos esforços para que isso não aconteça, o que gera desconforto e ansiedade, algumas vezes extremos. (BERGAMINE e TASSINARI 2008)

A obsessão pode se tratar de um pensamento, uma ideia ou recordação não desejada e incontrolável – dúvidas, temores, proibições, maus presságios e ideias catastróficas -, altamente carregada de significado emocional inconsciente, que se introduz na consciência por maior que seja o esforço para suprimi-la. Já a compulsão é um estímulo repetitivo que leva o indivíduo à ação, a realizar um ato ou uma série de atos. São atos que podem ser como cerimoniais mágicos, exagerados ou como caricatura do comportamento habitual. Exemplos simples são: lavar repetidamente as mãos, verificar inúmeras vezes e de forma meticulosa se o gás foi desligado ou se a porta foi fechada. Vejamos seus traços. (BERGAMINE e TASSINARI 2008)

Traços externos:

  • Obstinado na busca da perfeição, mostra atitude de parcimônia, coloca limites estreitos. Demonstra ordem, meticulosidade e teimosia;
  • Procura controlar tudo, tem medo de perda do controle emocional; 
  • Dificuldade para expressar agressão. Mostra fortes anseios de dependência, que geram raiva e insegurança, pois os considera inaceitáveis;
  • Quer demonstrar independência, rigidez e austeridade, através de formação reativa, o que pode levar ao isolamento;
  • Costuma fazer deferências e é obsequioso, para evitar impressão de raiva.
  • Costuma ser viciado em trabalho. Busca amor e aprovação por meio de esforços acima dos normais. Sente-se como se nunca estivesse fazendo o bastante. Busca a perfeição ao mesmo tempo em que fica insatisfeito com qualquer realização.
  • É controlador, a intimidade pode ser ameaçadora, uma vez que pode perder o controle emocional.
  • Não admite que outra pessoa saiba uma forma melhor de fazer alguma coisa, gerando paralisações e impasses nas relações. Possui um padrão de pensamento rígido e dogmático. Usa pensamentos ilógicos e segundo padrões estreitos. A intuição é considerada não lógica;
  • Rigidez de atitude, por exemplo com dificuldades de tirar férias;
  • Prende-se a detalhes, chegando a perder de vista o objetivo final. É consumido por indefinidas restrições sobre pequenas decisões. Exaspera todos em volta com suas indecisões.

Traços de personalidade profunda:

  • Traços de caráter se desenvolvem gradualmente como defesa contra a ansiedade gerada pelos conflitos inconscientes profundos e primitivos originando condutas rigidamente fixadas e pré-estabelecidas, o que proporciona uma segurança falsa ao indivíduo e reforça a manutenção dos impulsos ameaçadores e natureza hostil, agressiva e sexual no inconsciente.
  • Utiliza principalmente os seguintes mecanismos de defesa: formação reativa, dissociação entre ideia e afeto, anulação, regressão e ambivalência e pensamento mágico.

De onde vem nossas neuroses

Discordando de muitos psicanalistas famosos de sua época, principalmente Freud, Horney (1974) teorizou que as experiências infantis e os conflitos da vida adulta não fazem parte de uma simples relação de causa e efeito. Claro está que as experiências infantis contribuem como condição determinante de nossas neuroses, mas não são a única causa das nossas dificuldades. Estas são geradas também pelas condições culturais específicas em que vivemos, tão importantes que, em sua opinião, fazem as condições biológicas e fisiológicas passarem para um segundo plano, portanto não via justificativa em focalizar a atenção exclusivamente na infância e considerar as reações posteriores como meras repetições.

Numa importante reflexão sobre o efeito da cultura ocidental contemporânea sobre a saúde e a sanidade mentais, Fromm já em 1955 questionava “[…] se não há algo fundamentalmente errado em nosso estilo de vida e no tocante aos objetivos que buscamos realizar.” (1974, p. 24) Perguntava-se se a vida de prosperidade da classe média, a despeito de atender às necessidades materiais, não gerava uma sensação de intenso tédio e se não seriam o alcoolismo e o suicídio, por exemplo, formas patológicas de fuga a esse tédio.

Parece termos uma necessidade de uma “validação consensual” de conceitos. Isso é claro quando se trata de empreendedores, seguindo as mesmas fórmulas de sucesso, quando elas na verdade levam a maioria das empresas a quebrarem, o que claramente não é percebido ao longo do caminho. “Supõe-se, ingenuamente, que o fato de a maioria das criaturas compartilhar certas ideias e sentimentos prove a validade dessas ideias e sentimentos. Nada está mais afastado da verdade.” (FROMM, 1974, p. 28)

Fromm é contundente: “O fato de milhões de criaturas compartilharem os mesmos vícios não os transforma em virtudes, o fato de praticarem os mesmos erros não os transforma em verdades […]” (1974, p. 28) O autor sugere que acabamos participando de uma doença mental social, da qual não temos ciência e portanto não temos a sensação de insegurança e de nos sentirmos diferentes dos demais. Apesar de ter perdido em riqueza humana e em sentimento autêntico de felicidade, vive-se uma sensação de êxito, com os defeitos elevados a categoria de virtudes pela cultura. (FROMM, 1974)

O autor diz que nossa cultura fornece o remédio – modelos socialmente aceitos – para a exteriorização dos sintomas neuróticos resultantes dos problemas que nos são causados por ela própria, o que permite que vivamos com o problema sem nos percebermos como adoecidos. Faz parecer quer tudo vai bem e ela pode continuar funcionando por maiores que sejam os problemas por ela causados. Sugere inclusive que se a mídia e o entretenimento oferecidos desaparecessem por um mês, iriamos ver o surgimento de perturbações nervosas e uma ansiedade aguda similares à neurose. (FROMM, 1974)

Horney (1974) considera a ansiedade o denominador comum na formação das tendências neuróticas do caráter.

A ansiedade é o fator essencial dentro da dinâmica que produz a neurose, comum a todas as neuroses, juntamente com as defesas erguidas contra ela. É o motor que põe em marcha o processo e o mantém em andamento. O neurótico é sempre um sofredor, porém a neurose não é sempre perceptível para os outros, assim como às vezes não o é para o próprio neurótico. (HORNEY, 1974)

A questão é que o neurótico não só participa dos medos comuns a todos os indivíduos de sua cultura, como também possui medos que se afastam quantitativa e qualitativamente, daqueles peculiares aos padrões culturais da cultura em que vive. E não podemos considerar uma neurose somente do ponto de vista de sua estrutura dinâmica e psíquica, pois teríamos que conceber um ser humano normal e, este não existe. Por outro lado, não podemos considerar somente o ponto de vista sociológico, como um simples desvio da conduta comum de uma certa sociedade, pois estaríamos desprezando tudo o que se sabe sobre as características psicológicas das neuroses. (HORNEY, 1974)

É necessário aceitar a afirmação de que os problemas psicológicos são, por força, profundamente intrincados e sutis. O fato de ler a respeito de sua situação não curará uma pessoa, talvez permita que identifique o problema, muito mais nos outros do que em si mesma. (HORNEY, 1974)

E nas organizações

No caso dos indivíduos, consideramos a singularidade como sua personalidade, que pensada dentro da normalidade, pode estar mais ou menos saudável. Já as organizações, que também possuem sua personalidade, podem ser consideradas normais enquanto são produtivas e anormais se não o forem mais. (BERGAMINE e TASSINARI 2008)

Kets de Vries (2010) diz que atitudes inconscientes desempenham um importante papel nos relacionamentos humanos e, dotados de um pouco de esclarecimento clínico, podemos interpretar melhor, o que às vezes nos parecem fenômenos extremamente desconcertantes. Para o autor, “um modelo puramente racional de se olhar para uma organização não pode ser realista” (KETS DE VRIES, 2010, p. xvi).

Há uma escassez de materiais clínicos sobre empreendedorismo na literatura psicanalítica e psicoterápica, o que sugere a baixa probabilidade de os empreendedores procurarem um psicoterapeuta ou psicanalista ao enfrentarem dificuldades. Além disso, do ponto de vista clínico, muitos apresentam peculiaridades de comportamento que dificultam o trabalho, como sua propensão para a ação, que faz com que hajam, às vezes, sem pensar, o que pode acarretar sérias consequências para a organização. (KETS DE VRIES, 2010).

Conclusão

Ket de Vries (2010) diz que o empreendedor, um herói folclórico do mundo globalizado, “[…] se tornou o último cavaleiro solitário, um individualista corajoso lutando contra as adversidades do ambiente […]” (p. 37) que substituiu os heróis mitológicos como Prometeu e Odisseu. Mas, segundo o autor, o sucesso é algo muito frágil, como comprovam as histórias de muitos empreendedores.

O empreendedor é “[…] um indivíduo que se utiliza da rebeldia inovadora como mecanismo de adaptação […]” (p. 38), deslizando, às vezes, para o que parece ser um comportamento delinquente – ruptura, comportamento independente. A tensão, no entanto, permanece em seu interior, em função do uso desses mecanismos reativos para lidar com os sentimentos de raiva, medo e ansiedade oriundos do medo do fracasso – punição. (KET DE VRIES, 2010)

Para Horney (1974, p. 16) “a neurose é um distúrbio psíquico suscitado por medos e defesas contra estes medos, e por tentativas para encontrar soluções conciliatórias para tendências em conflito.” Claro está que isso acontece de forma inconsciente, muitas vezes com o indivíduo agindo de forma contrária a maneira como pensa, e tem certeza, que age. Em termos práticos, a autora sugere que “só convém dar a esse distúrbio o nome de neurose quando ele se afasta dos padrões comuns à cultura considerada” (Horney, 1974, p. 17).

Referências

BERGAMINI, Cecília Whitaker; TASSINARI, Rafael. Psicopatologia do comportamento organizacional: organizações desorganizadas mas produtivas. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

FROMM, Erich. Psicanálise da sociedade contemporânea. 7ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

HORNEY, Karen. A personalidade neurótica de nosso tempo. 7a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.

KETS DE VRIES, Manfred F. R. Reflexões sobre Caráter e liderança. Porto Alegre: Bookman, 2010.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998

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Décio Marcellino

Décio Marcellino

Desenvolvedor de games empresariais e educacionais, plataformas e aplicativos, com a utilização de ciência de dados, andragogia, aprendizagem significativa, psicoeducação e socionomia. Consultor em crescimento, recuperação e bem-estar de empresas conduzindo processos de ciborguização e implantação de modelo de negócio socionômico com a utilização de dialógica e pensamento complexo.
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